Ela


Impossível de falar dEla, de falar sobre Ela, para isso devo começar com uma frase do tipo: "Quem nunca?” Quem nunca teve que se despedir de uma relação na qual o fez sentir sentado, ou seja, deitado, caminhando, correndo pelado, se sentindo um super dotado, super lotado de um super tamanho, super desposto, um super arranjado, um super melódico, super melancólico, super bom, super pronto, super um, super homem, super viagem, super sacanagem, super, super, super, super, tão super, tão super que chega, chegou, que estive, que estava na lua super distante causando uma super sombra e em super ti acompanhando na terra sempre estivemos juntos, sempre, sempre. 
Impossível falar sobre Ela começando por: "Por que não?" achando que todo mundo sempre sentiu, achando que Ela limita isso aos seus ouvintes, eu vou falar com quem já me sentiu, inclusive Ela fala muito como quem nunca sentiu e teve gente que nunca sentiu esse super, tem gente que não sente nada, tem gente que tem medo, eu me pergunto se o medo sente que tem gente sentindo-o, pois, ele está em todo lugar, sempre presente em alguém que tá sentindo algo tão super. E quem você pode ser? O movimento? O olhar? As lagrimas? Os passos? É vida? 

E eu me pergunto: “O que é que olha a vida?” “Ou por quem a vida olha?”

E mais do que nunca, somos o tempo. Se Ela, Eu, ou Ele, estamos, está inteiro, hoje, mais nunca, Ela, inteiro hoje, mais inteiro, inteiro nunca, Ela por inteiro, não dá para falar dEla sem pensar em seu tempo, em seu inteiro, mas afinal quem é Ela? Será que é por isso? Por eu não saber quem é Ela ou por eu saber quem Ela é que é tudo tão escuro? Tão nublado? Ensolarado? Gelado? Quente? Será que é por isso que amo passear a noite? Ou até mesmo dormir na praia? Será que é por isso? Por Ela ser tudo que eu adoro sentir o frio do rigoroso inverno em minha espinha enquanto Ela esquenta os meus ouvidos falando sem parar, do mesmo jeito que eu imagino Ela fazendo sei lá o que, enquanto eu estou sentado em meu apartamento assistindo pela tv o corpo dEla. Não tem como não pensar nEla, não tem como pensar em ti, sem pensar no tempo, em todo, em qualquer, em lugar, em ligar. 
- “Atende, quero falar" 
- “Estou te ouvindo...” 
Sim, já falei muito com uma voz, com vozes, aliás, quem nunca? Telefone, computador, voz que corria, voz no vento, voz que mentia, voz que fugia, voz que eu achei ser de outro, voz minha, impossível ouvir a voz dEla e não lembrar dessas vozes, as vezes a voz era dEla Ela, as voz era de outro nEla. 
Já chorei só de ouvir Ela, só de pensar na possibilidade de ser Ela, só de um acaso que seja dEla, mas quem seria Ela nessas lágrimas? O motivo? A razão? A possibilidade? A contra mão? A virtude? Lágrimas frias que dão o ar da graça em dias quentes, podendo me aconchegar em seus pedaços molhados. Mas quem nunca chorou por Ela?

Impossível pensar nEla e não lembrar de tudo que aconteceu, o que vive e o pior o que está por vim, o presente existencial apaga a existência de um passado e de um possível futuro que sobrevivem em nossas memórias e pensamentos.

O tudo de um nada


Todas pessoas que passam diante de nossos olhos deixam seus traços e rabiscos, cores e vozes, marcas que as vezes ficam escondidas nos menores lugares de nossas memórias, mas sempre estará lá, esperando para poder se libertar e gritar a sua existência para você. 
Nessa correria do dia a dia se perdemos as vezes, nos encontramos sozinhos no meio da multidão, perdidos sem saber de onde veio e muito menos sem saber para aonde vai. São nesses momentos que respiramos novos ares, saímos dessa poluição em busca de um ar novo, talvez nunca usado por outra pessoa, ar que adentra os nossos pulmões causando a estranheza do desconhecido, mas aos poucos vai se ajeitando nesses velhos pulmões e tentando tirar todo esse ar arcaico que se tem dentro dele, porém, jamais sairá por completo. 
As marcas da guerra de nossas vidas sempre se mantém em nossos corpos, cicatrizes que ficam para sempre em nossas almas, para podermos olhar para elas e ter a certeza de que vivemos, de que estamos vivos. O sentimento é a unica certeza de que a vida se mantém, da dor ao amor, são eles que nos mantem em pé todos os dias. 
Nada que acontece em nossas idas por aquela estrada sem fim perto da rua dezenove é em vão, tudo que passamos por esses caminhos, cada passo, cada pessoa, cada ar novo que experimentamos sempre irá ter a sua importância diante de novos olhares perante ao mundo e sua simples complexidade. 

Não enlouqueça nessa busca eterna pela perfeição. Alguns defeitos são importantes.

Novo novos


Cansei,
Cansei de andar,
Cansei desse mesmo ar,
Cansei das mesmas coceiras,
Cansei de velhas poeiras,
Cansei desse modo de amar
Cansei desse todo cansar.

Cansado,
Cansado de velhos dias,
Cansado de pseudas ideias,
Cansado de meus passos,
Cansado de campos vastos,
Cansado desse medo de amar,
Cansado desse todo cansar.

Canseira,
Canseira dos mesmos trabalhos,
Canseira desses antiquários,
Canseira dos mesmos horizontes,
Canseira de velhos montes,
Canseira desse jeito de amar,
Canseira desse todo cansar.

Sonhar,
Sonhar em novos passos,
Sonhar com belos traços,
Sonhar sobre novos horizontes,
Sonhar em velhos montes,
Sonhar com o novo amar,
Sonhar nesse todo sonhar.

Novos e velhos ares


Era só esperar a vida aparecer;
Encontra-te na beira da calçada;
Vivenciando as belas arquiteturas;
Seus belos traços que moldam espaços para vidas;
O velho e o novo;
Bastava um belo e intenso sorriso;
Para seguir a luz que ele poderia imanar.
Mas as consoantes eram mais intensas;
Te sugavam em calafrios;
Uma leve pluma no ar;
Fecha o seu horizonte;
Voando sem rumo e nem direção;
Leva-te aos berrantes suspiros do inicio;
Seus pés que tocam aquele chão úmido; 
Não se molham mais;
As vogais são maiores;
E eleva-te à radiante luz;
Os rumos são outros;
As vivências em os 'mais'.

Velho lobo uivante


A minha alma ainda és um velho lobo apaixonado, que ruiva para ventos passados. 
Trancafiando-se nas grades dos mortos, vivendo dentro da esperança de liberta-se. 
Uma mera nota sozinha que não consegue se definir como uma melodia. 
Um norte que não consegue se guiar perante ao sul. 
Vales de prazer, vales de pensamentos, vales de sorrisos, vales de viver. Descartáveis pegadas que são deixadas a beira do mar com os seus fins perante a esperança de não ser beijadas pelo mar. 
Como dizia o blues: "Quando não se diz nada, é a morte de cada palavra".

Um vazio tão cheio de si


Estranho vazio cheio de vida;
Tão cheio de si;
Mas nada dentro de ti.
Deixa-se levar por sorrisos falsos;
Na busca de seu caminho;
Na busca de sua vida.
Tentando encontrar o seu resumo;
Apenas a sua felicidade.
Seus passos lentos;
Sua voz frenética;
Seu sorriso melancólico;
És você nessa rua vazia.
Leve brisa na nuca;
Uma leve luz aos seus olhos;
O frio e o quente que se tocam;
É a sua mão em busca de outra;
Uma dualidade eterna.
Mesmo em seu silêncio;
Na busca de seu vazio;
O seu externo GRITA;
Exala palavras mortas;
Que tentam se encaixar ao seu redor;
Mas no final são apenas palavras;
Apenas, corvos em um dia comum;
Que buscam se encaixar em seu velho novo.

Tantos passos ao seu redor;
Mas o passo que carrega a sua musica;
Ah, ele caminha para longe;
Levando o seu eu que está por perto;
E longe demais de seu olhar;
Seu simples olhar que se fecha;
Na esperança de um dia renascer.